terça-feira, 6 de junho de 2017

Wide Open Eyes

Como parágrafo desconexo
Eu, perguntas sem respostas

Espelho sem reflexo
Tornei-me uma aposta

Uma larva

Eu, coração em brasa
Desatei a fazer versos

Pra defrontar meus desertos
Criei asas

O parque

Chuva e outono
Tem tudo a ver

Ela vem pra lhe benzer
Ele se deleita no abandono

sábado, 6 de maio de 2017

Belchior

A manhã de sol virou lamento
ao saber do teu suposto naufrágio

Cantarolando teus versos
navegamos, desde sempre, o tenebroso mar do falso pranto dos insensíveis

Resigno-me
porque é somente um até breve

Reflito sobre a tua
nossa, da humanidade arma quente

Uma vez mais, para dispará-la
foste chamado

Obrigado, Bardo!

**** A Felicidade é uma arma quente (Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes)

Estágios

A adolescência
Assim se fez

Bebia todas
Pra disfarçar  timidez

Hoje, ela faz
Por puro prazer

Porque não suporta ressaca

Decidiu

Há tempos
Mitiga a cachaça


quinta-feira, 6 de abril de 2017

Nadiesda

Certos nomes, quando concebidos
São envoltos em delicados mantos

Talham-se para o sussurro ao pé do ouvido

É como se a pluma de uma rara ave
Ousasse um passeio atrevido pelo corpo

Cada letra pronunciada

Corresponderia, da pele
A um arrepio

sábado, 25 de março de 2017

A mulher começou a fumar


1
a mulher começou a fumar
não havia nenhum fumante na família
ocorrendo certo desconforto
– desde sempre, pelo que se lembrava –
quando fumavam perto dela

o turno na noite
– em um estacionamento de shopping –
convidava à solidão

às vezes
no descanso do lar, ocorria de ouvir
o som dos pneus, riscando o chão
quando manobravam antes da rampa

2
se lembrava da mãe comentar
– com uma ponta de ironia –
que se não estudasse acabaria secretária
fato que lhe parecia
– no momento
– convenhamos! –
melhor do que aquilo

o pai amenizava
contava nos dedos os diplomados
– só no seu lado da família –
que terminaram assim:
“muito trampo / pouca grana”

uma tia
– um tanto distante na genealogia –
– ele frisava –
tinha devorado os livros
e terminara em um caixa de supermercado
“contando o dinheiro dos outros”

3
certa noite
pegou um guimba no chão
– perto de onde os carros manobravam –
e deu o primeiro trago

não havia um único fumante na família
ela pensava entre um &
    outro trago



segunda-feira, 6 de março de 2017

Decorpoema

Pintarei meu ninho de branco
qualquer dia desses

Nas paredes e no teto, em vez de espelhos
poemas

Entre um gole e outro de vinho, num simples percorrer de olhos
Lerei versos em negrito

Uma mesa de sinuca servirá de companhia

Alçarei voo
rumo a desconhecidos continentes

Enquanto encesto a bola sete na caçapa






sábado, 25 de fevereiro de 2017

Elegia nº 2

1
o que estiver em andamento findará
& não haverá mãos que o resgate:

o pão com manteiga
(mordido uma única vez)

a reforma do telhado
(antes da temporada das chuvas)

o poema derradeiro
(abortado na última estrofe –

restando apenas – talvez –
o ponto final)

2
pequenas coisas, de uma banalidade ímpar
exigindo algum engenho & muita paciência:

encontrar o carro estacionado em local ignorado
(em alguma rua nas proximidades –
não mais que dezenas delas em dois quarteirões)

“alguém precisa ir alimentar o gato
& dar de beber às samambaias –
sabe-se aonde guardava as chaves de casa?”

quitar uma pequena dívida no mercadinho
(duas maçãs, uma garrafa de mel, cachaça –
“não há nota”, diz o cobrador meio encabulado)

3
o morto não se enterra sozinho
havendo em torno diversos encargos:

alguém que pague tudo (caixão,
carneiro, lápide)
& seja justo no rateio entre os familiares –
“a cada um segundo as suas possibilidades”

cabendo a outrem a inglória parte
– quem há de fazê-lo sem se lastimar? –
de ligar para a mãe
(aquela que o carregou por 9 meses)
que antes de se desesperar
encontrará forças
para ligar na manicure
& desmarcar o horário



sábado, 18 de fevereiro de 2017

A noite do Rato


1
quando ela avistou o rato cruzando a cozinha
– de um extremo ao outro –
 o pavor que se instalou foi irracional

se se tratasse de um ladrão
o desespero não seria tão grande
talvez tentasse argumentar
dizer: as joias estão na cômoda!
ou pedir clemência: piedade, tenho um filho!

com o rato, não:
não havia diálogo

2
toda a esperança estava ali:
uma ratoeira – comprada às pressas –
armada na varanda
por onde o animal escorreu
passando debaixo
– vão minúsculo – da porta

naquela altura
já não havia para onde ir
nem pra quem pedir ajuda

a noite seria longa e insone
assim como a noite do rato
farejando e varrendo a escuridão
incansável em seu propósito

3
não convém relatar – haveria palavras? –
a reação da mulher, logo pela manhã
ao encontrar um pobre pardal
antes alegre sobre o muro
– isso ela não viu –
debruçado sobre a ratoeira
degolado



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Raptor

O Rio de Janeiro atrai muitos amores
Outros tantos conquistará

O que ele tem, que eu não tenho
Nem carece perguntar

Tenho ciúme desse Rio
Seu carisma é tanto que me agride

Chama as musas para perto
Deixa o ponto de interrogação no meu cabide

Quem sabe, um dia eu me mude pra lá
Inspire-me, onde Vinícius de Moraes escrevia, de punho

Só não sei se vai dar certo

O Rio é de Janeiro
Eu sou de Junho

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Repouso

Branquinha
é a vela do meu veleiro

Navega meu mar

De dezembro
a fevereiro

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Noturna

Abrigo-me
Entre os seios da escuridão

Aguardo um menestrel

Um encantador de sacadas
Que empreste seus versos

Para que eu os diga
Quando a janela se abrir

Se o vizinho do lado
Jogar o vaso de flores
Farei dele
Meu ramalhete pra ela

domingo, 6 de novembro de 2016

Piperácea

Acariciava os mamilos dela o tecido
Como se fosse um meticuloso artesão

Pouco a pouco
Nutria-se o algodão dos seios

Espontaneidade sem fim
Início, ou meio

Duas vertentes de vida
Harmonizavam com o  vermelho da calcinha
Que encobria os pelos pubianos

Tão lento era o movimento
Que o dia desejaria ser ano

Fotografia, novembro 2016





quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Olhando nos olhos

Se, em jogo
Não estivessem bens imóveis

Se
Dívidas brotassem das cômodas

Se
Zero fosse o saldo da conta bancária

Se
Imperasse o desemprego

Se
Crédito no cartão não houver

Então
Aspirar-se-ia com ardor
Escutar uma voz dizendo

Meu homem, meu amor
Minha mulher



terça-feira, 6 de setembro de 2016

Vozes correntes

"Poetas detêm a chave que abre todas as portas"
 "São mestres na arte de amar"
"Desvendam os mistérios das almas"

***

Diz-se
Que seus lampejos de escrita teriam a beleza das auroras boreais
Causando inveja nas guerreiras Valquírias
Cujas armaduras refletem os raios do sol

***

Quase nunca é mencionado, porém
Que eles não querem saber de muita coisa
Que eles não se consideram geniais

***

Poetas gostam de enveredar-se pelos atalhos
Que conduziriam a um suposto Éden
(fantasiado de "pressa de viver")

***

William T. Maud
A cavalgada das Valquírias, 1890

sábado, 6 de agosto de 2016

Magnanimidade

Nada é mais generoso
Que uma árvore

Fotografia, agosto de 2016


Pentelha

Madrugada
Três horas e dezenove minutos

Encrava na mente a palavra

Ela quer brincar
De briga de travesseiro


quarta-feira, 6 de julho de 2016

Estrada dos sentidos

A mim parece tão claro
Prefiro trilhas noturnas

Que venha a loucura
Ser minha apimentada, doce namorada

Beijar-me a boca, mostrar a estrada

Por ela
Guardo ternura

Por este caminho do dia
Não sinto nada

Para a amargura
Não tenho paciência

Por isso, "Vida longa à demência"!

*******

"Algumas pessoas nunca enlouquecem. Que vida horrível elas devem levar". (Charles Bukowski)

segunda-feira, 6 de junho de 2016

O que dizem as folhas

Parece que, um dos ensinamentos do outono
é de que "beleza dá trabalho"

O amor, qualquer que seja a sua forma, dá muito mais
e não escolhe a estação

Será ele imune ao bolor, à decadência?

Ou os duros dias existem
Para nos lembrarem que, apesar deles
o verbo amar é como o vento...

Não sei
esse tópico pertence a outro capítulo

Pois agora é tempo de prestar atenção no farfalhar das folhas
tentar resgatá-las da frieza do chão

Fotografia, junho de 2016

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Mãe

Nem havia despontado a primavera

Partiste
Atendendo a um chamado de caminhos floridos

Se eu pudesse mudar as estações
Traria incontáveis verões
Aos teus sonhos banidos

Canteiro

Semente sequestrada
Chega misturada
Com terra de jardim

Olho pra você, ai de mim

Acorda, todo dia, estrangeira
Na rica terra adubada
Ouro sem versos, sem nada
Além de inço e capim

Chamo, você não responde
Milho de beira de estrada

Perto de mim fez morada
Olho pra você, ai de mim

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Haicai

Caso à parte
Uma vida
Com arte

Fotografia, abril de 2016



Bambaleante

Arranha minha pele
Revira meu ouvido

Jura que sou
Seu amor bandido

Quando ela me toca
Sou como artista

Ando na corda
Sem rede
De equilibrista

quarta-feira, 16 de março de 2016

Pas de deux


A bailarina, desiludida, apertou o corpete novo, escolheu o mais belo tutu, vestiu a meia, prendeu o cabelo num coque apertado, se maquiou, colocou a sapatilha de ponta, deu um laço em cada fita, passou a corda no pescoço e deu sua última pirueta pendurada no ventilador de teto - a pirueta mais longa de toda sua carreira. 


Isaac Ruy

domingo, 6 de março de 2016

Amanhã, teu olhar

Sempre haverá um jeito, além de Paris
O ar cosmopolita de Marseilles

Um cavaquinho, partido alto, samba de breque
O sorriso de um moleque

Um povo que reaja, embora o Senado
Uma quitanda, que tenha dinheiro trocado, embora os Bancos
E o que eles nos tem explorado

Uma mídia honesta, apesar dos favores
Uma comédia, depois dos horrores

Uma morte, um nascimento

Sempre haverá um jeito, mesmo parecendo não haver outro
Haverá teu olhar